O consagrado ator Marcelo Serrado irá completar 25 anos de carreira, e nada melhor para sua comemoração como o sucesso do seu atual personagem Crô, da novela Fina Estampa. Confira um bate papo com o ator, sua trajetória e fotos.

Marcelo Serrado

O consagrado ator Marcelo Serrado irá completar 25 anos de carreira, e nada melhor para sua comemoração como o sucesso do seu atual personagem Crô, da novela Fina Estampa. Confira um bate papo com o ator, sua trajetória e fotos.



Em iminência de completar 25 anos de televisão – com sua estreia em Corpo Santo, na extinta Manchete, em 1987 –, Marcelo Serrado admite que, atualmente, enxerga a carreira de um ponto de vista mais crítico. “O ator tem de entrar para ganhar. Só que isso tem de ser feito na humildade. O mercado é muito pequeno. Então, você não pode fazer as coisas de forma mediana”, analisa o intérprete do afetado Crô, de Fina Estampa, da Globo.

A visão competitiva do ator carioca de 44 anos, fica evidente quando ele para pra pensar na sua trajetória na TV, marcada por personagens sem muita visibilidade no longo período em que esteve na Globo, e dos protagonistas vividos por ele na Record, depois que estreou na emissora, em Prova de Amor, de 2005.


“Mostrei que era capaz de interpretar personagens ousados e diferentes. Quero continuar nesse caminho. Gosto de correr riscos. Ainda mais quando eles dão certo, como é o caso do Crô”, comemora Marcelo, que voltou à Globo este ano, a convite do autor Aguinaldo Silva.

Em Fina Estampa, Crô é o apelido de Crodoaldo Valério, mordomo da mansão da histérica e ricaça Tereza Cristina, de Christiane Torloni. “Ele ‘faz tudo’ para a patroa e se define como um ‘personal all’. É uma relação de devoção”, conta. Delicado e elegante, além de aturar os “pitis” da perua, Crô mantém uma história própria, cujo destino anima Marcelo. “Ele tem um namorado misterioso. O Aguinaldo fugiu do ‘quem matou?’ e o segredo da trama é ‘quem é o namorado?’”, ressalta, aos risos.



Quase tendência

Para dar vida a personagem Crô é inevitável algumas alterações na rotina de Marcelo Serrado. Principalmente, no quesito vaidade. Logo depois das primeiras conversas com Aguinaldo Silva e Wolf Maya, o ator sentiu que teria de se cuidar mais. Por isso, intensificou os exercícios físicos, privilegiou uma alimentação mais saudável e passou a usar cremes anti-idade. “Passei a dormir com creme rejuvenescedor no rosto e fazer barba com produtos especiais. Além disso, corro bastante, luto boxe e faço aula de alongamento e dança para dar uma soltada no quadril”, confessa, aos risos.

Outras apostas – Mesmo entusiasmado com o trabalho em “Fina Estampa”, Marcelo Serrado não consegue ficar distante do teatro e do cinema. “São coisas complementares. Quem gosta, sempre arruma um tempinho para fazer”, destaca. Atualmente, o ator pode ser visto de segunda a sábado na tela da Globo, e também nos palcos com a turnê nacional da peça “Não Existe Mulher Difícil”, escrita por Lúcio Mauro Filho e dirigida por Otávio Müller. Incansável, ele já começa a planejar sua rotina para participar das filmagens de “No Retrovisor”, longa baseado na peça de Marcelo Rubens Paiva, que começa a ser filmado no início do próximo ano. “O filme conta a história de reencontro entre dois amigos. Participei da versão teatral e estou empolgado com esse projeto”, revela.


Entrevista com o ator Marcelo Serrado

Com 18 novelas no currículo, seu nome é bem conhecido do grande público. No entanto, o Crô é o primeiro personagem realmente popular de sua carreira. Como encara essa repercussão?

Ele realmente é bem popular. Caiu no gosto do público. Recentemente, fui apresentar minha peça no Nordeste. Estava no aeroporto e muitas pessoas vieram falar comigo, me cumprimentar. Senhoras, crianças, jovens, todo tipo de gente! Fiquei impressionado. É a primeira vez que isso acontece comigo. A maior parte disso tudo se deve ao talento do Aguinaldo em escrever personagens desse tipo. Tem a Nazaré, da Renata Sorrah, o Giovanni Improtta, do José Wilker, entre outros.

Para você, o que faz do Crô um personagem tão querido?

Depois de algumas conversas, Aguinaldo, eu e o diretor Wolf Maya decididos que iríamos humanizar o personagem ao máximo. Estou sempre em busca da verdade do personagem. Então, eu quis fazer um gay não estereotipado. Ele não é apenas solar e alegre. Tem uma melancolia, uma dor dentro dele. O que justifica a aproximação de uma faixa de público bem heterogênea. É um personagem único. Quando isso aparece na carreira de um ator, é preciso se jogar. A resposta vem em forma de popularidade.

A leveza e o humor do Crô contrastam com o tom mais sério da discussão dos direitos dos homossexuais, presente em novelas recentes, como “Insensato Coração”. Você acha que o Crô deveria assumir alguma postura em relação a esses interesses?

Gays em novelas parecem uma questão de cota. E cada autor trabalha com um tipo. Foi uma opção do Gilberto Braga abordar esse assunto de forma mais contundente. Quando fui convidado para interpretar o Crô, o maior conselho do Aguinaldo era de que eu deveria me divertir. A trama do personagem não quer desrespeitar ninguém, mas também não levanta bandeiras.

Sua estreia no posto de protagonista foi em “Prova de Amor”, de 2005, na Record. Você acha que retornar à Globo em um papel de destaque tem a ver com os papéis principais que desempenhou na outra emissora?

Não tenho dúvida disso. Ir para a Record foi uma decisão acertada e um dos momentos mais importantes da minha carreira. Passei anos padronizado por um tipo de personagem. Isso só acabou quando fui para a Record. Foi uma grande virada. Hoje sou visto pelo mercado de outra forma.

Quando surgiu o convite para integrar o elenco de “Fina Estampa” você ainda era contratado da Record. Como foi esse movimento de volta à Globo?

Quis fazer tudo da melhor maneira possível. Fui muito feliz na Record. Fiz trabalhos que possibilitaram uma redescoberta da minha atuação pelo público e uma prova de que conseguiria variar e fazer personagens diferentes pela crítica. Eu não conhecia o Aguinaldo e ele me chamou porque viu o meu trabalho na Record. Ele queria um ator heterossexual para fazer esse personagem. Foi uma aposta dele, um risco dele. Mas acho que ele está feliz com essa escalação. Meu contrato com a Record estava terminando. Não queria romper com a emissora. Esperei meu contrato acabar e assinei com a Globo para fazer “Fina Estampa”.

Você estava cotado para protagonizar um novo seriado policial na Record. Nem esse trabalho conseguiu fazer com que você ficasse na emissora?

A proposta desse seriado era tentadora. Mas eu estava na emissora há 5 anos. Estava a fim de fazer outras coisas. A Globo sinalizou essa volta, com esse personagem, na novela das nove. Não tinha como dizer não. Assinei um contrato superbacana e longo. Mas não foi algo que abalou minha relação com a Record. Gosto de manter amizade com as empresas que investem em mim.

Você tem algum receio de novamente ser escalado para fazer apenas personagens parecidos, como os inúmeros bonzinhos que você interpretou durante os anos 90?

Foram muitos, né? Mas acho que faz parte. E tem tanta gente que faz isso. Me sinto um ator mais preparado para fazer tipos diferentes. Acho que tive de passar por tudo isso para ser o profissional que sou hoje. Sou muito mais seletivo e rigoroso. Comecei a recusar papéis que pudessem me limitar a fazer mais do mesmo. E, com certeza, não faria de novo alguns trabalhos. Tenho um critério maior porque acredito mais em mim. Levo minha profissão a sério e quero poder chegar ao nível de fazer sempre papéis instigantes.

Essa visão mais rigorosa sobre os personagens o deixou mais autocrítico com sua atuação?

Pois é. Estou mais atento. Procuro ver tudo o que eu faço. Acompanho mesmo. Vou olhando meus erros, onde a expressão não teve um bom resultado. Me analiso, vejo quais os caminhos que eu devo seguir. Até hoje estudo atuação. Tenho uma “coach”, e toda segunda-feira trabalho as cenas da semana com ela.

A relação de amor e ódio entre o Crô e a Tereza Cristina, da Christiane Torloni, é bem parecida com os personagens Marc e Wilhelmina do seriado americano “Ugly Betty”. Eles foram uma fonte de inspiração?

Conheço o seriado, mas inspiração para o personagem não passou por ele. Me dediquei bastante para compor o Crô. Comecei a observar mais as pessoas. Inclusive, o cabelo é inspirado em um músico amigo meu chamado David Alvarez. Também tive a ajuda do preparador de elenco Sergio Penna. Fomos juntos a várias boates gays do Rio de Janeiro e de São Paulo. Foi onde observei gestos, roupas, modo de andar, expressões faciais. Anotava tudo. Fora isso, vi alguns filmes, como o documentário “Santiago”, do João Moreira Salles, “Milk”, do Gus Van Sant, e “O Fiel Camareiro”, do Peter Yates. Juntei todas essas informações com o que eu achava que seria coerente para o Crô. Faço ele de forma meio contida, menor. Porque o personagem já tem uma imagem muito forte.

A caracterização do Crô é realmente marcante. Isso facilita na hora de entrar no personagem e gravar?

Me ajuda muito. Eu ponho a roupa e o personagem já vem. Fico dando pinta nos corredores do Projac. É quando o trabalho de composição vem à tona: ele tem sempre uma mão apoiada na cintura e mexe bastante os quadris, corre de forma tímida, fala sempre usando as mãos, os dedos, tudo para frisar as coisas. E a voz dele tem um tom baixo, elegante. É um personagem de composição, mas feito com verdade.

Cena de  Seu Atual Personagem Crô

Entrevista Marcelo Serrado no TV Xuxa

Fotos Marcelo Serrado